Um modelo de pensamento para reverter as crises a seu favor. E que pode ajudar a melhorar o seu comportamento diante de pressão das situações inesperadas.
O que diferencia um líder? Na maioria das vezes, o que está por trás das chamadas "habilidades de liderança" são formas específicas de pensar e de agir, um jeito próprio de ver o mundo e atuar sobre ele. Por isso mesmo, o comportamento de liderança pode ser treinado e aprendido a partir de certos "modelos de pensamento", ou dicas precisas sobre como encarar os fatos do dia a dia - seja no trabalho ou na vida pessoal.
Para você entender o que é antifrágil, uma boa maneira é partirmos para a definição do que é frágil, que seria algo que sai prejudicado (quebra, rompe ou deforma) quando submetido à pressão de um agente externo. Faz sentido para você? O antifrágil, oposto de frágil, é algo que melhora quando está diante de uma situação inesperada.
Essa lógica é interessante pois rompe com o modelo de que o oposto de fragilidade está em força ou resistência, características de quem é capaz de suportar situações extremas sem se alterar. Ao buscar somente essas duas características, você não irá melhorar com o caos, permanecendo no mesmo estado em que está. No argumento de Taleb, dizer que algo resistente é o oposto de frágil é como dizer que neutro é o oposto de negativo.
Primeiras impressões
"Apesar de percebermos apenas instintivamente, muitas coisas na vida se beneficiam do nervosismo, da desordem, da volatilidade e da agitação. O que Taleb identificou como antifrágil é a categoria de coisas que não apenas se beneficiam do caos, mas que precisam dele para sobreviver e crescer".
O livro possui 664 páginas, divididas em 25 capítulos, mais epílogo, glossário, apêndices I e II, notas adicionais, reflexões posteriores e leituras complementares, bibliografia, agradecimentos e índice. Trata-se de um livro denso, mas muito prazeroso - para que você não se assuste com a robustez da obra. Durante a introdução, o autor entra nos conceitos de fragilidade e, claro, na sua ideia de antifragilidade:
"Não há uma palavra para antifragilidade nas principais línguas conhecidas, modernas, antigas, coloquiais ou gírias. Até mesmo o russo (a versão soviética) e o inglês padrão do Brooklyn não parecem ter uma designação para antifragilidade, confundindo-a com robustz".
Ao nomear o termo antifragilidade, o autor desenha a tese de que ele não seria compatível nem sinônimo das palavras "robusto", "sólido", "inquebrável", "bem-construído" ou "resiliente". O que o autor pretende é justamente dar a ideia de um termo que possa expressar a fragilidade reversa.
Ao se aprofundar sobre o tem em Antifrágil, Nassim Taleb ainda destaca a necessidade de conflitos e adversidades como moldas propulsoras à uma série de avanços - estes acontecem justamente por nos sentirmos provocados a seguir em frente.
"Não se pode subir ao poder e governar sem enfrentar perigo contínuo - alguém trabalhará ativamente para derrubá-lo".
O livro se desenvolve cercado de exemplos e pensamentos antigos capazes de provocar reflexões importantes sobre o mundo contemporâneo. Coisas como a importância da morte para a vida, as vantagens dos erros para o coletivo e algo que considero fundamental para o desenvolvimento da humanidade: as razões pelas quais precisamos de pessoas que assumam riscos.
Opcionalidade, tecnologia e inteligência da antifragilidade
Uma das partes mais interessantes do livro dá razão a um pensamento em que fica clara a tensão existente entre a educação convencional, que preza a ordem, e a inovação, que preza a desordem. Nesse ponto, o autor faz uma constatação interessante, confira:
"Investigações empíricas sérias (em grande parte graça a um certo Lant Pritchet, então economista do Banco Mundial) não demonstram qualquer evidência de que o aumento do nível geral da educação aumenta a riqueza de um país. Mas sabemos que o oposto é verdadeiro, que a riqueza leva ao aumento da educação - e isso não é uma ilusão de ótica".
Em Antifrágil, o autor defende a tese de que a educação traz benefícios que vão além da estabilização da renda familiar, sendo que a ideia de investir em educação para aprimorar a economia é algo bastante recente, sem comprovação técnica de tais benefícios.
Muitas vezes acabamos fazendo as perguntas erradas e, consequentemente, chegamos a conclusões equivocadas - não com relação à resposta para a pergunta, mas sim quanto a resolução do verdadeiro problema. Sim, porque o problema da educação é categórico e requer discussão importante, com o olhar voltado para o futuro.
A ética da fragilidade e da antifragilidade
Cada vez está mais claro que apenas boas intenções são insuficientes para que a sociedade possa evoluir, e o limite entre o ético e o legal se torna uma barreira praticamente inexistente para uma sociedade onde as pessoas assumem cada vez mais posições pessoais sem levar em conta o bem comum.
"O pior problema da modernidade reside na maligna transferência de fragilidade e de antifragilidade de um lado para o outro, com um dos lados recebendo os benefícios e o outro recebendo (involuntariamente) os danos; essa transferência é facilitada pela lacuna, cada vez maior, entre o ético e o legal".
Antes de tudo, Antifrágil é uma verdadeira aula. Poucos autores na atualidade conseguem transitar por temas tão complexos de maneira suave e interessante quanto Nassim Taleb.
Citações:
- "Se pela manhã você souber com precisão como será o seu dia, você está meio morto - quanto mais precisão, mais morto você está".
- "O que não me mata não me fortalece, mas nada os menos aptos e torna a população sobrevivente mais forte como um todo".
- "Nunca espere condecorações por dizer a verdade".
- "Se você tem a sensação de que não leu muito, é porque não leu o suficiente".
- "A incerteza é algo presente, desejável e necessário para a evolução".
- "Se você vê uma fraude e não diz fraude, você é uma fraude".
- "Você pode nunca saber que tipo de pessoa alguém é, a menos que ele tenha a oportunidade de desafiar códigos morais ou éticos".
- "Minha ideia do salário estoico moderno é alguém que transforma medo em prudência, dor em informação, erros em começos e desejos em realizações".
- "Esta é a ilusão central da vida: que aleatoriedade é um risco, que é um coisa ruim".

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